FORMAÇÃO PROFISSIONAL

 

1. O papel do Biólogo em Biotecnologia

 

2. A importância da formação básica do Biólogo para atuar em zonas de sombreamento com outras profisões

 1. O PAPEL DO BIÓLOGO EM BIOTECNOLOGIA

 

(Texto de consenso dos biólogos Maria Antonia Malajovich, Marcio dos Santos Vasconcelos, Maurício José Fernandes, Ivo Alberto Borghetti, integrantes da Comissão de Biotecnologia do CFBio (2015-2019)

 

"Biotecnologia significa qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos, ou seus derivados, para fabricar ou modificar produtos ou processos para utilização específica" (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica, da ONU - 1992). O rol do biólogo no termo “bio” corresponde a seus conhecimentos sobre os seres vivos e seus componentes, e ao domínio tecnológico que lhe é garantido pela sua formação profissional. 

No CFBio (Brasília, 2016)

Esse leque de conhecimentos básicos abrange as áreas de Microbiologia, Botânica, Zoologia, Biologia Molecular, Citologia, Fisiologia, Anatomia, Ecologia, Genética, Evolução. Uma bagagem profissional ampla que irá determinar as possibilidades de atuação do biólogo e, ao mesmo tempo, exigirá dele uma formação tecnológica específica complementar. O cultivo de microrganismos, células e tecidos, por exemplo, é um requerimento da área de Bioprocessos e Bioengenharia. Suas aplicações abrangem a produção de alimentos, de insumos para a indústria química, de vacinas e de medicamentos para a saúde animal e humana. E, também, a biorremediação do meio ambiente.

 

Historicamente, essas aplicações estavam baseadas em noções empíricas, substituídas, a partir do século XIX, pelo conhecimento científicos e tecnológico. Um exemplo representativo dessa mudança é a elaboração por bioprocessos complexos de alimentos e bebidas anteriormente preparados por fermentações artesanais. Outro é a obtenção de vacinas e antibióticos, que tiveram um rol preponderante na prolongação da esperança de vida humana. E um terceiro, a produção de biocombustíveis e bioplásticos, essenciais para a saúde do meio ambiente.

 

Por sua inserção nos diferentes setores, a chegada da engenharia genética representa um marco importante para a sociedade. Na segunda metade do século XX, a Tecnologia do DNA-Recombinante revolucionou a área industrial de produção de enzimas. Junto com a Tecnologia de Hibridomas, possibilitou a elaboração de kits de diagnóstico rápido e preciso, tão necessários hoje em relação a doenças emergentes como zika, dengue, chikungunya ou febre amarela. Por outro lado, fábricas de mosquitos transgênicos contribuem para diminuir a população do Aedes aegypti, o vetor transmissor dessas doenças.

 

Se os kits de diagnóstico com base genética ou imunológica modificaram positivamente o setor de saúde, uma nova etapa começou com progresso no cultivo in vitro de células-tronco e o mapeamento do genoma humano. Dentro da genômica, que incide em todas as áreas, as novas tecnologias de sequenciamento (Next Generation Sequencing) aceleram e facilitam os estudos genéticos e farmacológicos. Além do diagnóstico preventivo de doenças, surgem também aplicações de interesse nos estudos paleontológicos e arqueológicos. 

 

Lamentavelmente, até agora, nem o processo educativo nem a divulgação científica conseguiram transmitir para o público a relevância dos novos conhecimentos científicos e tecnológicos. A participação do biólogo na área educativa, em todos os níveis, se torna cada vez mais necessária a fim de esclarecer a opinião pública sobre os alcances da biotecnologia, seus desafios e seus riscos.  

 

A agricultura, por exemplo, é uma das áreas que sofreu mais hostilidade devido à desinformação da população sobre as novas tecnologias. O cultivo de plantas e a domesticação de animais começou 10.000 anos atrás. O melhoramento genético de animais e vegetais por métodos empíricos foi substituído pelas técnicas clássicas de melhoramento, baseadas na genética mendeliana. Em uma etapa posterior essas técnicas foram complementadas pela utilização de marcadores moleculares, das tecnologias reprodutivas e da tecnologia do DNA recombinante.

 

Os resultados espetaculares alcançados na produção de plantas resistentes a pragas ou tolerantes a herbicidas, como a soja e o milho, constituem a base do agronegócio no Brasil, dentro do marco estabelecido pela lei de Biossegurança.

A produção de animais transgênicos para a produção de medicamentos, a clonagem de animais de estimação e a obtenção de órgãos para xenotransplantes deixaram de ser temas de ciência-ficção e podem fazer parte de um futuro muito próximo.

 

As recentes técnicas inovadoras de melhoramento de precisão (TIMPs) ampliam as possibilidades de modificação de genomas sem ser, no entanto, enquadradas dentro da categoria de “organismo geneticamente modificado – OGM”. Este é o caso de uma levedura adaptada à produção de bioetanol, recentemente aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio.

 

Como serão assimiladas essas tecnologias? O fantasma da desinformação e das falsas notícias paira sobre a sociedade e pode ser um fator determinante na aceitação ou rejeição das novas tecnologias. Conceitos como perigo, risco e avaliação de risco precisam entrar no vocabulário das pessoas. Mais uma vez, o biólogo tem a palavra.

 

Os produtos e serviços citados não são mais que uma pequena amostra das realizações da biotecnologia. Existem muitas mais, como a aplicação das tecnologias com base biológica na substituição de insumos agrícolas e na remediação do meio ambiente, cuja importância cresce dia a dia. Outras são relevantes para a proteção e a conservação da biodiversidade terrestre e marina. 

 

No panorama diversificado da biotecnologia, o rol do biólogo é fundamental, por sua formação, por sua capacitação técnica e por sua sensibilidade aos problemas éticos e de biossegurança. 

 

ATUAÇÃO DO BIÓLOGO EM BIOTECNOLOGIA

 

A ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO BIÓLOGO EM ÁREAS DE SOMBREAMENTO

 

2. A IMPORTÂNCIA  DA FORMAÇÃO BÁSICA  

 

(Maria Antonia Malajovich (Apresentação - Fórum Nacional; CFBio – Brasília 14 setembro 2019)

A formação e o perfil do biólogo atuante em biotecnologia estão claramente definidos pelo Conselho Federal de Biologia (CFBio). O artículo 3 da resolução CFBio 227/2010 enumera as atividades profissionais que poderão ser exercidas pelo profissional Biólogo em três áreas de atuação: I. Meio Ambiente e Biodiversidade, II. Saúde, III. Biotecnologia e Produção.

 

Biotecnologia significa qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos, ou seus derivados, para fabricar ou modificar produtos ou processos para utilização específica (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica, da ONU - 1992). 

 

O mesmo artículo 3 citado da Resolução CFBio227/2010 acrescenta que o exercício das atividades profissionais/técnicas vinculadas às diferentes áreas de atuação fica condicionado ao currículo efetivamente realizado ou à pós-graduação lato sensu ou stricto sensu na área ou à experiência profissional na área de no mínimo 360 horas comprovada pelo Acervo Técnico. Por conseguinte, o rol do biólogo corresponde a seus conhecimentos sobre os seres vivos e seus componentes, e ao domínio tecnológico que lhe é garantido pela sua formação profissional.

 

Na mesma resolução, o artigo 6 define as subáreas de atuação do Biólogo em Biotecnologia e  Produção:

 

Biodegradação; Bioética; Bioinformática; Biologia Molecular; Bioprospecção; Biorremediação; Biossegurança; Cultura de Células e Tecidos; Desenvolvimento e Produção de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs); Desenvolvimento, Produção e Comercialização de Materiais, Equipamentos e Kits Biológicos; Engenharia Genética/Bioengenharia; Gestão da Qualidade; Melhoramento Genético; Perícia/Biologia Forense; Processos Biológicos de Fermentação e Transformação; Treinamento e Ensino em Biotecnologia e Produção.

 

Finalmente, a Resolução CFBio 517/2019 dispõe sobre a atuação do Biólogo em Biotecnologia e Produção. Do conjunto dessas Resoluções se desprende claramente o entendimento da Biotecnologia como uma especialidade do profissional Biólogo que reúne conhecimentos sobre os seres vivos e seus componentes em uma formação básica ampla e o domínio tecnológico que lhe é garantido pela sua formação profissional. 

 

Qual a importância da formação básica do biólogo para se desenvolver em áreas de sombreamento com outras profissões?

 

A Biotecnologia abrange uma rede complexa de conhecimentos em que ciência e tecnologia se entrelaçam e complementam, integrando ciência básica (biologia molecular, microbiologia, biologia celular, genética etc.), ciência aplicada (técnicas imunológicas e bioquímicas, DNA-recombinante, TIMPs (técnicas inovadoras de melhoramento de precisão), assim como técnicas decorrentes da física e da eletrônica), e outras tecnologias (bioprocessos, separações, purificações, informática, robótica e controle de processos).

 

Por outro lado, como a Biotecnologia incide em diversos setores produtivos da sociedade (Indústria, Energia, Meio Ambiente, Biodiversidade, Agricultura, Pecuária, Alimentos e Saúde), as atividades legais do biólogo acabam por criar zonas de sombreamento com as de outros profissionais que atuam nos mesmos setores (engenheiros, químicos, agrônomos, veterinários, médicos, advogados, empresários, economistas etc.. ).

 

A formação básica do Biólogo, que está determinada no Parecer CFBio Nº 01/2010, indica os requisitos mínimos para atuar em pesquisa, projetos, análises, perícias, fiscalização, emissão de laudos, pareceres e outros serviços nas áreas de Meio Ambiente, Saúde e Biotecnologia. "O Núcleo de Formação Básica (1995 horas) objetiva proporcionar os conteúdos do campo de saber que forneçam o embasamento teórico e prático para que o acadêmico possa, a partir de uma formação-base sólida, direcionar a sua formação específica buscando, assim, construir sua identidade profissional. Também recomenda “privilegiar atividades obrigatórias de campo, laboratório e adequada instrumentação”, o que favorece o trabalho em equipe e estimula a aquisição de conhecimentos, habilidades, destrezas e resiliência

 

Uma formação básica bem sucedida é o principal alicerce do/a Biólogo/a especialista em Biotecnologia, porque

 

1. Introduz as diferentes metodologias de trabalho em cada disciplina, ampliando e enriquecendo o campo cognitivo do aluno;

 

2. Estabelece as bases para interagir com outros profissionais, com vistas a uma atuação futura tanto em área multidisciplinar como interdisciplinar;

 

3. Estimula as atitudes críticas baseadas no conhecimento e permite a adaptação do Biólogo BT a diferentes situações laborais. 

 

4. Ocorre no contexto integrador CTSA (Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente) em um momento histórico em que os rumos da economia, da saúde, da indústria e do meio ambiente dependem de decisões baseadas em uma cultura científico-tecnológica. 

 

5. Permite continuar na profissão mediante “a prática da formação continuada de modo a acompanhar os avanços científico-tecnológicos da Biologia contemporânea, e atender com qualidade e eficiência as demandas da sociedade”

 

Ao longo de sua vida profissional, o/a profissional biólogo/a especializado/a em Biotecnologia e Produção terá que se reinventar várias vezes, seja para acompanhar a evolução da Ciência e da Tecnologia em sua formação específica, seja para colaborar ou competir com outras profissões nas zonas de sombreamento...e para isso contará com sua formação básica.     

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