Definidas como “saber” e “fazer”, a Ciência e a Tecnologia não são duas entidades diferenciadas. Em alguns casos, como a invenção do microscópio e a descoberta das células, a Tecnologia antecede a Ciência.

 

Já no caso da Engenharia Genética, por exemplo, a Tecnologia surge em consequência do conhecimento sobre um tipo de enzimas, as nucleases.

 

Por outro lado, o progresso de tecnologias como a Informática e a Eletrônica permitiu o aparecimento da Genômica, uma nova área da Ciência. Atualmente, a Tecnologia se apoia na Ciência e, ao mesmo tempo, é um requisito da própria Ciência.

 

Biotecnologia significa qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismos vivos, ou seus derivados, para fabricar ou modificar produtos ou processos para utilização específica (Artigo 2 da Convenção sobre Diversidade Biológica, da Organização das Nações Unidas [ONU] - 1992).

A Biotecnologia abrange uma rede complexa de conhecimentos em que Ciência e Tecnologia se entrelaçam e complementam, integrando ciência básica (Biologia Molecular, Microbiologia, Biologia Celular, Genética etc.), ciência aplicada (técnicas imunológicas e bioquímicas, assim como técnicas decorrentes da Física e da Eletrônica), e outras tecnologias (bioprocessos, separações, purificações, Informática, Robótica e controle de processos).

 

Essa estreita relação é a base fundamental da Biotecnologia, uma atividade baseada em conhecimentos multidisciplinares que utiliza agentes biológicos para fazer produtos úteis ou resolver problemas. Abrange atividades profissionais variadas, que podem ser exercidas por engenheiros, químicos, agrônomos, veterinários, microbiologistas, biólogos, médicos, advogados, empresários, economistas etc.

 

A percepção pública cumpre um papel importante,  impulsionando, regulando ou limitando o desenvolvimento da Biotecnologia. Essa influência, que opera de forma diferente em cada um dos setores produtivos da sociedade, está  sujeita a lobbies e grupos de opinião que agem  mediante campanhas de marketing acirradas.

Vivemos em uma sociedade científico-tecnológica. Necessitamos de conhecimentos tanto para nos orientar nas escolhas profissionais como para participar, ativa e conscientemente, da tomada de decisões que a sociedade nos exige. Duas razões que apontam a relevância do ensino de Ciências.

No entanto, o ensino de Ciências parece estar em crise. As avaliações internacionais do letramento científico nos países latino-americanos são desapontadoras, sendo indispensável a formulação de ações capazes de melhorar o desempenho de nossos estudantes (Programa Internacional de Avaliação de Alunos [Pisa]).

 

Por outro lado, e apesar de ter bons resultados nessas avaliações, os jovens europeus mostram um desinteresse crescente pelas profissões que exigem o aprofundamento dos estudos científicos, configurando uma tendência que poderia alterar as previsões relativas às forças de trabalho necessárias para o desenvolvimento dessas sociedades (Rose, Relevance of Science Education; Report Rocard on Science Education).

 

Obviamente, a falta de conhecimentos e a falta de interesse não têm as mesmas causas. Na América Latina, o acesso em grandes proporções a uma educação de qualidade ainda está longe de se tornar uma realidade.

Na Europa, a falta de interesse dos jovens se deveria aos métodos de ensino aplicados, considerados áridos e tediosos. Além de mais escolas e de professores capacitados e bem remunerados, são necessários métodos de ensino mais ativos e participativos, se quisermos despertar e conservar o interesse dos jovens pelos estudos científicos.

O ensino de Biotecnologia visa também desenvolver, nos indivíduos e na sociedade, as bases de uma cultura científico-tecnológica indispensável para entender seus alcances e seus limites e poder utilizá-la em benefício do ser humano.

 

No entanto, a visão tradicional das profissões, estática e compartimentada, contribui para que a incorporação dos novos conhecimentos nos programas de estudo e nos livros de texto seja muito lenta.

Galeria de imagens: A quem? Quando? Como?

3. A QUEM? QUANDO? COMO?

 

Das respostas, assim como do diagnóstico apurado das condições e perspectivas locais depende a definição do alvo da educação: a alfabetização tecnológica ou a formação para o trabalho.

 

A Biotecnologia pode ser inserida em qualquer nível de ensino: Fundamental, Médio, Técnico ou Superior.

 

Por ser uma área multidisciplinar, várias são as estratégias possíveis, desde a inserção em diferentes matérias (geralmente Biologia e Química e, em menor grau, Geografia) até a concentração em uma área ou matéria única (Biotecnologia).

 

A escolha dos temas pode estar centrada tanto nas áreas que recebem o seu impacto (Indústria e Energia, Meio Ambiente, Biodiversidade, Agricultura, Pecuária, Alimentos e Saúde) como nas tecnologias (fermentações, clonagem, tecnologia do DNA, Engenharia Genética etc.).

Seja qual for o caminho escolhido, o objetivo fundamental é o estímulo de um estilo de pensamento que combine a compreensão e o aprofundamento teórico (dimensão científica) com a ação e o fazer prático (dimensão tecnológica), em um contexto social e ambiental (dimensão social e ambiental) (Maiztegui et al., 2002; Perez et al., 2005).

Existe amplo consenso sobre a importância da experimentação na formação científico-tecnológica dos jovens.

 

Além de estimular e manter a curiosidade sobre os fenômenos naturais, a experimentação permite a formulação de hipóteses e o controle de variáveis, consegue incorporar a ação e o fazer prático, característicos da dimensão tecnológica, e pode ser desenvolvida em laboratórios próprios, com material sofisticado ou alternativo, e também em laboratórios centralizados, aos quais alunos e professores acedem periodicamente.

 

Esse consenso, no entanto, se contrapõe a nossa realidade: poucos são os estabelecimentos de ensino com laboratórios adequados.

A formação prévia dos professores é indispensável, mas, para que se sintam estimulados a realizar atividades práticas, terão que contar com turmas pouco numerosas, espaço físico adequado, orçamento compatível, assistência técnica e uma carga horária que permita a organização e o acompanhamento dos experimentos.

 

A participação do aluno em atividades experimentais contribui ativamente para a aquisição de habilidades básicas, tais como observar, medir, analisar e compartilhar resultados (“aprender fazendo”). Contudo, alguns autores recentemente levantaram dúvidas sobre a eficiência real das atividades práticas quando transformadas em uma série de protocolos enfadonhos e repetitivos (Singer et al., 2006).

No ensino da Biotecnologia Clássica, esse risco é evitado facilmente. Dentro do contexto Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente (CTSA), existem numerosos temas que permitem a construção de unidades didáticas que tratem dos agentes biológicos e das ferramentas básicas, assim como de sua relação com setores produtivos tão diversos como indústria, alimentos, energia, meio ambiente, biodiversidade, agricultura e saúde.

 

A formação prévia dos professores é indispensável, mas, para que se sintam estimulados a realizar atividades práticas, terão que contar com turmas pouco numerosas, espaço físico adequado, orçamento compatível, assistência técnica e uma carga horária que permita a organização e o acompanhamento dos experimentos.

 

A participação do aluno em atividades experimentais contribui ativamente para a aquisição de habilidades básicas, tais como observar, medir, analisar e compartilhar resultados (“aprender fazendo”). Contudo, alguns autores recentemente levantaram dúvidas sobre a eficiência real das atividades práticas quando transformadas em uma série de protocolos enfadonhos e repetitivos (Singer et al., 2006).

 

Alguns protocolos de atividades práticas, tradicionalmente aplicados no âmbito da Biologia ou da Química, adquirem uma perspectiva nova quando incluídos em um contexto biotecnológico. Protocolos novos e atividades totalmente inabituais dentro dos cursos das matérias citadas também contribuem para dar uma nova face ao ensino de Biotecnologia.

 

Para que todos os alunos possam participar ativamente de um experimento é necessário fornecer-lhes os materiais adequados. Uma das soluções existentes para sustentar as atividades experimentais é procurar elementos alternativos de baixo custo, presentes na vida cotidiana. É importante frisar que o fato de utilizar materiais caseiros não significa que a experimentação seja simples ou banal.

 

Na adaptação de uma unidade didática básica ao nível de ensino correspondente, as opções incluem desde uma montagem simples até uma complexa, que permita testar diferentes variáveis e possa ser integrada na programação de um curso. O desenvolvimento da tecnologia da informação popularizou dispositivos eletrônicos e aparelhos celulares que possibilitem o registro de desenhos e imagens e, sendo o caso, sua transformação em animações ou filmes de curta duração.

 

 Na construção de sistemas de monitoramento e no controle de processos, uma vertente que começa a ser explorada contempla a utilização de hardware relativamente simples e economicamente acessível, desenvolvido especialmente para a área educativa (Arduino). A utilização de recursos multivariados associados às atividades práticas é uma tendência enriquecedora, cada vez mais presente nos cursos técnicos e de graduação, porque conduz à realização de projetos mais ambiciosos.

5. ATIVIDADES PRÁTICAS SIMPLES E COMPLEXAS 

 

No ensino de Biologia, a utilização de protocolos muito definidos era uma tendência da década de 1960, que, embora permitisse ao professor sair rapidamente do ciclo infernal do “cuspe e giz”, acabava sendo repetitiva. Uma década mais tarde tentou-se deixar para o aluno a responsabilidade de conduzir livremente os experimentos, a partir de questionamentos abertos. Como nem sempre era possível chegar a algum resultado concreto no prazo determinado, a frustração era inevitável.

 

Em uma linha intermediária, a realização de montagens experimentais simples, suficientemente flexíveis, permite testar diferentes variáveis. Dentro da denominada Biotecnologia Clássica, os temas são numerosos e as atividades se enquadram dentro do contexto CTSA (Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente). A ênfase no “agir” ou no “pensar” varia de acordo com a idade dos alunos.

Temos que ressaltar que não se ensina Ciências como se ensina Tecnologia. No ensino de Biotecnologia, o aprendizado de técnicas e a execução de procedimentos são os dois objetivos primordiais das atividades experimentais, onde os alunos realizam observações e medições com equipamentos e materiais diversos, em condições de segurança, para posteriormente elaborar os resultados. Em relação à Biotecnologia Clássica, numerosas atividades experimentais (hands on) podem ser desenvolvidas no laboratório de ensino.

 

As atividades práticas, como indicado anteriormente, costumam ser desenvolvidas nos laboratórios de ensino, ou em laboratórios centralizados, utilizados de forma ocasional ou periódica. Também podem ser realizadas em campo, isto é, fora do ambiente laboratorial. O principal valor do trabalho de campo é relacionar a observação e a teoria.

 

Contudo, não é menos importante para o aluno a percepção vívida da necessidade de trabalhar em equipe, que é gerada pela atividade em um ambiente diferente ou desconhecido, em condições meteorológicas ou situações nem sempre favoráveis.

Dependendo da faixa etária dos alunos, algumas atividades podem ser consideradas seguras e outras devem ser evitadas, mas, em todos os casos, devem ser respeitadas as normas de segurança standard. Em situações arriscadas, ou quando se precisa focalizar algum aspecto pontual, pode ser válido substituir uma atividade prática realizada pelos alunos por uma demonstração a cargo do professor.

 

Do ponto de vista didático, o ensino de Biotecnologia chega a incorporar, em uma mesma atividade, estratégias múltiplas de aprendizado (behavioristas, cognitivistas, construtivistas). Um aspecto curioso, observado por vários autores em relação ao ensino de Tecnologia, está na dificuldade de enquadramento dentro de uma única tendência educativa, sendo necessário utilizar estratégias múltiplas de aprendizado (Dunham et al., 2002; Mann, 2010).

6. AS INDAGAÇÕES

 

Indagações são atividades práticas complexas que começam com a identificação de um problema pontual, de relevância tecnológica e social, e com a formulação de perguntas. O passo seguinte é a elaboração de um rigoroso planejamento experimental seguido pela coleta de dados no laboratório, onde, então, os alunos aplicam as habilidades adquiridas previamente no aprendizado de técnicas e na execução de procedimentos.

 

O desenvolvimento de softwares e a difusão de aparelhos celulares com diferentes graus de sofisticação permite o registro de desenhos e imagens e sua transformação em animações ou vídeos, uma vertente a ser explorada.  Uma vez analisados os dados, seguem a apresentação e a discussão desses dados, com participação coletiva.

O termo indagação é preferido a “pesquisa” ou “investigação”, porque salvo no caso do aluno estar em um laboratório avançado de nível universitario, os trabalhos resultantes diferem do que se convenciona denominar “trabalhos científicos”. Os cientistas indagam na fronteira do desconhecido, enquanto os estudantes indagam em terreno conhecido, apropriando-se do conhecimento para comunicá-lo aos outros ou para aplicá-lo em condições diferentes.

 

No caminho entre a elaboração de um projeto e sua realização, se estabelece uma relação assimétrica entre o professor e o aluno. Acentuada no início, a participação do professor irá diminuindo, em função da personalidade do aluno e das dificuldades encontradas no desenvolvimento do trabalho.

 

As indagações estimulam a criatividade e a independência dos alunos, que entram em contato com situações reais para as quais existem diferentes soluções. Exigem também uma avaliação crítica dos métodos e das conclusões, além da comunicação dos resultados. 

E, principalmente, são inerentes à compreensão do processo de construção do conhecimento científico e tecnológico (Score, 2009). A interação com alunos de outras disciplinas ou com diferente formação abre um leque amplo de possibilidades de colaboração

 

7. COMUNICAR É PRECISO

 

A comunicação dos resultados é parte importante do trabalho científico e tecnológico. As exposições montadas anualmente nas Semanas de Ciência e Tecnologia permitiam aos alunos apresentar seus trabalhos a pais e amigos. Sempre foram um motivo de orgulho e alegria para os alunos, seus familiares e profesores. 

 

Independentemente de algumas deficiências ou incorreções, uma vez concluído o trabalho, este será a obra do aluno, e sua satisfação e o orgulho serão evidentes na hora de uma apresentação aos colegas, professores, amigos e familiares, em ocasião de algum evento de Ciência & Tecnologia. 

 

A montagem dependia mais da criatividade que da forma. Os mesmos paineis de isopor reciclados ano a ano e cobertos por papel branco 40 quilos eram a base de uma apresentação que incluia uma curta introdução, materiais e métodos e resultados além de uma montagem dos experimentos ou dos produtos na bancada. Em algumas ocasiões os participantes venderam seus produtos: geleca (slime), vinagres, clones de Kalanchoe, óleo de copra etc.    

 

O dineiro recolhido era todo aplicado em compras de material e equipamentos.

Galeria de Imagens: Comunicar é preciso

 

8. O ENSINO DA BIOTECNOLOGIA MODERNA   

 

Em uma perspectiva histórica, as novas tecnologias que constituem a Biotecnologia Moderna (Tecnologia do DNA, Engenharia Genética) se superpõem à denominada Biotecnologia Clássica, configurando hoje uma unidade indissolúvel.

 

Contudo, em muitos estabelecimentos de ensino, a montagem de atividades práticas específicas de Biotecnologia Moderna se encontra limitada por vários fatores, sendo os principais o custo dos equipamentos (termocicladores, cubas de eletroforese, sequenciadores etc.) e dos reagentes (primers, enzimas de restrição, réguas moleculares, sondas etc.).

 

Um estabelecimento de ensino que consiga superar essa barreira deverá procurar docentes qualificados e e atuar de acordo com a Lei de Biossegurança. Um arcabouço legal que torna quase impossível o trabalho experimental com organismos recombinantes fora das universidades e instituições de pesquisa (Binsfeld, 2015).

 

Atualmente, são muito poucos os estabelecimentos de ensino que conseguem reunir as condições necessárias para desenvolver atividades de Biotecnologia Moderna. Mais frequente é o oferecimento de minicursos realizados em laboratórios universitários ou instituições de pesquisa, onde esses temas podem ser abordados experimentalmente. Como norma geral, o uso de organismos recombinantes no ensino está limitado a organismos e vetores NB1.

 

Nos Estados Unidos e no Reino Unido, materiais e kits didáticos de transformação microbiana são comercializados por empresas especializadas, como uma alternativa econômica e segura a protocolos de alto custo, que podem colocar o professor em posição de infringir as disposições legais reguladoras (Carolina Biological Supply, DNAlc, NCBE etc.).

 

9. O AUXÍLIO DA TECNOLOGIA EDUCATIVA

 

Em relação ao ensino da Biotecnologia Moderna, a tecnologia educativa é o grande aliado do educador. Para a complementação do tema, todos os recursos didáticos são válidos: modelos, simulações, leitura, interpretação e discussão de textos, seminários, acesso a bancos de dados, debates e role-playing. Esses recursos não dependem da disponibilidade de um laboratório.

 

Os modelos bi ou tridimensionais permitem simplificar a explicação de uma estrutura (DNA), de um processo (transcrição, tradução) ou de uma técnica (PCR), sendo facilmente aplicáveis em sala de aula. Contudo, para ilustrar técnicas complexas (eletroforese, sequenciamento didesóxi, Southern blot), as animações resultam bem mais interessantes. Em contraposição, é necessário dispor de algum dispositivo eletrônico.

 

Animações com um grau de complexidade variável são encontradas facilmente na Internet, respondendo às necessidades de diferentes níveis de aprendizado. Por serem muito atrativas visualmente, existe o risco de utilizá-las em turmas de alunos sem condições de entendê-las, deixando um conhecimento mal estruturado. Considerados como uma brincadeira educativa, alguns games transmitem conceitos errados, de modo que, antes de utilizá-los como ferramenta na educação, deve-se analisar rigorosamente o seu conteúdo.

 

Bem mais interessante para o docente é a possibilidade de acessar os bancos de dados genômicos e identificar uma espécie ou uma doença a partir de uma sequência de DNA. Preparados por especialistas, vários planos de aula que contemplam diversas temáticas têm sido disponibilizados em Genética na Escola, a revista publicada pela Sociedade Brasileira de Genética.

 

O laboratório virtual surge como resposta às preocupações com biossegurança, mas também pela dificuldade de acesso ao fenômeno estudado ou aos equipamentos necessários (Howard Hughes Medical Institute-Biointeractive). Apesar de não substituir a experiência direta, a apresentação detalhada de uma técnica ou procedimento facilita a etapa prévia do aprendizado.

 O laboratório virtual surge como resposta às preocupações com biossegurança, mas também pela dificuldade de acesso ao fenômeno estudado ou aos equipamentos necessários (Howard Hughes Medical Institute-Biointeractive). Apesar de não substituir a experiência direta, a apresentação detalhada de uma técnica ou procedimento facilita a etapa prévia do aprendizado.

 

A tecnologia da informação também coloca ao alcance do educador algumas atividades virtuais, tais como desenvolver as etapas correspondentes a um teste de ELISA ou construir passo a passo uma mosca transgênica. Instituições como Howard Hughes Medical Institute-Biointeractive, DNA Learning Centre, Wellcome Trust-Education Resources (Labster), entre outras, fornecem recursos de altíssima qualidade que visam conectar a ciência, a tecnologia e o mundo circundante.

 

Existem outras possibilidades interessantes, entre as quais podem ser destacadas as visitas virtuais a laboratórios de pesquisa ou de empresas. Encontrar esse material demanda pesquisas periódicas porque muitos desses sites têm uma vida curta.

Galeria de imagens: Os recursos disponíveis

 

10. A VOLTA À EXPERIMENTAÇÃO 

 

Nos países desenvolvidos, a crise econômica do início de século XXI excluiu dos empregos formais numerosos jovens com boa formação profissional. Paralelamente, o progresso tecnológico causou uma queda acentuada nos preços dos equipamentos básicos de laboratório e de síntese-sequenciamento de ácidos nucleicos.

 

Aproveitando a cultura do empreendedorismo existente, várias organizações (Biobricks Foundation) e universidades (Harvard, Massachusetts Institute of Technology - MIT etc.) estimularam algumas iniciativas educativas e promoveram a criação da comunidade DO IT YOURSELF BIO (DIYBIO).

 

Tomando como referência o nascimento da indústria dos computadores pessoais na Califórnia, essa geração monta laboratórios de fundo de garagem, absorve o conhecimento disponível em open source e aproveita equipamentos de segunda mão, quando não cria os próprios. Trabalha com base na livre difusão de protocolos e sequências biológicas standard que são usadas, com segurança, como blocos fundamentais (biobricks).

 

O objetivo da biologia sintética é desenhar e construir sistemas biológicos simplificados que cumpram funções determinadas. Os elementos fundamentais são moléculas de DNA formando estruturas de complexidade crescente denominadas partes, dispositivos e sistemas. Essas estruturas, associadas entre si como blocos de Lego, serão colocadas em um microrganismo ou chassis. Observe-se que os participantes utilizam exclusivamente microrganismos com baixo ou nenhum risco individual e coletivo e biobricks seguros, disponibilizados por organizações responsáveis.

 

A comunidade DIY compartilha valores e normas de trabalho. O estímulo à inovação científica e econômica, assim como ao empreendedorismo, está presente nas competições internacionais iGEM (International Genetically Engineered Machine), organizadas pelo MIT desde 2003. No Brasil, algumas universidades têm participado desses eventos desde 2009. Na comunidade DIY, a biologia sintética se desenvolve em um sistema transparente de código aberto, não sendo possível restringir o acesso a informação, materiais e equipamentos. Algumas organizações, contudo, temendo a participação de pessoas sem treinamento adequado (biohackers) ou mal-intencionadas (biocrackers), pedem um controle estrito.

 

 Uma regulação estrita, por outro lado, limitaria o acesso ao conhecimento de uma comunidade promissora, explicitamente comprometida com o desenvolvimento de códigos de conduta, protocolos seguros e regulamentações. Este movimento abre um novo canal para o ensino e a divulgação da ciência que, além de atingir o público geral e complementar a atividade acadêmica, contribui para a democratização do conhecimento.

Galeria de imagens: A biologia sintética

 

11. BIOTECNOLOGIA, ENSINO E SOCIEDADE  

 

Por incluir tantas tecnologias diferentes, a apropriação das Biotecnologias não se restringe necessariamente aos países desenvolvidos. Existe um espaço que os países emergentes podem ocupar, em função de suas riquezas naturais, desde que existam prioridades econômicas e políticas definidas claramente. Devemos a esse comprometimento não só os êxitos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Instituto Oswaldo Cruz, do Butantã ou do Tecpar como os de muitas empresas brasileiras locais de médio ou pequeno porte.

 

Quais são as perspectivas futuras? A condição fundamental para o desenvolvimento é contar com instituições competentes que formem uma massa crítica de pesquisadores e pessoal técnico treinado. Essa condição existe no Brasil, onde as universidades criaram numerosos cursos de graduação e pós-graduação em Biotecnologia. A formação de pessoal de apoio também é garantida pelos cursos técnicos oferecidos por diversas instituições.

 

Porém, fora desse âmbito, a alfabetização científico-tecnológica da população não ocorreu como era esperado no início da década de 1990. Enquanto alguns setores da sociedade perceberam logo a relevância da Biotecnologia no mundo moderno, outros a consideraram uma atividade antinatural e perigosa, desencadeando uma propaganda maciça baseada na ignorância e no medo. Partidários e opositores se enfrentaram com menos frequência no terreno da razão que no das paixões, fossem elas políticas, religiosas ou ideológicas.

 

A aparição de termos novos como Bioeconomia, Bioética, Bioarte ou Biossegurança indica claramente a importância de uma cultura científico-tecnológica básica. A situação se torna crítica diante das novas tecnologias de edição gênica (CRISPR), que terão um forte impacto na sociedade.

 

Para sair desse impasse, o grupo dos docentes do Ensino Médio e Fundamental, assim como o dos jornalistas que se dedicam ao jornalismo científico, terá que ser reavaliado, porque cabe a eles a formação dos cidadãos e sua imunização contra a desinformação e as mentiras difundidas nas redes sociais como “verdades alternativas”.

 

 Além do crescimento das atitudes tecnofóbicas, existem outros problemas. Um deles é o desinteresse dos jovens pelas matérias científicas, que exigem esforço, dedicação e resiliência, mas que não são vistas como um caminho para empregos bem remunerados. Outro, a reunificação das áreas de ciências (Física, Química e Biologia) e seu peso final na nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), estabilizando o nível do ensino dessas matérias em um patamar menor do que o necessário para acompanhar os cursos universitários científico-tecnológicos. Também existem deficiências na formação dos docentes do Ensino Fundamental e Médio que, por isso, encontram dificuldades em transmitir uma visão atualizada e sem preconceitos da Biotecnologia.

 

Produtos e processos inimagináveis cinquenta anos atrás entraram em nosso cotidiano antes que os alicerces científicos e tecnológicos correspondentes fossem inseridos em nossa cultura, através de uma divulgação ampla que atingisse também o sistema educativo em todos os seus níveis (European Commission, 2007).

 

Não existe possibilidade alguma de construir uma sociedade moderna se os seus integrantes ignoram os aspectos mais gerais de Ciência e Tecnologia. O desconhecimento aumenta o risco de rejeitar tecnologias promissoras, capazes de gerar novas perspectivas, com vistas a um desenvolvimento sustentável em áreas tão críticas como saúde, produção de alimentos, energia e meio ambiente.

 

12. BIBLIOGRAFIA  BÁSICA

 

AMERICAN SOCIETY FOR MICROBIOLOGY. Go Inside a Clinical Microbiology Lab.

 

ARDUINO

 

BIG PICTURE

 

BINSFELD, P.C.(Org.). Fundamentos técnicos e o sistema nacional de biossegurança em Biotecnologia. Rio de Janeiro: Interciência, 2015.

 

BIOBRICKS FOUNDATION. .

 

BIOTECHNOLOGY AND BIOLOGICAL SCIENCES RESEARCH COUNCIL (BBSRC).

 

CAROLINA BIOLOGICAL SUPPLY

 

CARVALHO, D.O. et al. Mass Production of Genetically Modified Aedes aegypti for Field Releases in Brazil. Journal of Visualized Experiments, n.83, p. 1-10, 2014. 

 

COMMERCIAL BIOTECHNOLOGY: An International Analysis. Washington D.C.: U.S. Congress, Office of Technology Assessment, OTA-BA-218, January, 1984.

 

CONSELHO FEDERAL DE BIOLOGIA (CFBio). 

 

DIYBIO

 

DNA LEARNING CENTRE

 

DUNHAM, T.; WELLS, J; WHITE, K. Biotechnology Education: A multiple Instructional Strategies Approach. Journal of Technology Education, v.14, n.1, p. 65-81, 2002

 

EUROPEAN COMMISSION. Science Education NOW: A renewed Pedagogy for the Future of Europe. Luxemburgo, 2007. 

 

EUROPEAN INICIATIVE FOR BIOTECHNOLOGY EDUCATION (EIBE)

 

GENÉTICA NA ESCOLA

 

GROS, F.; JACOB, F.; ROYER, P. Sciences de la vie et de la Société: Rapport au président de la République. Documentation Française, Paris, 1979.

 

HOWARD HUGHES MEDICAL INSTITUTE (HHMI). Biointeractive

 

INDIEGOGO. AMINO: desktop engineering for everyone

 

INTERNATIONAL GENETICALLY ENGINEERED MACHINE (iGEM). 

 

LABSTER. Disponível em: <https://www.labster.com/>. Acesso em: 14 abril 2017.

 

MAIZTEGUI, A. et al. Papel de la tecnología en la Educación Científica: una dimensión olvidada. Revista Iberoamericana de Educación, n.28, p. 129-155, 2002. 

 

MALAJOVICH M. A. O Ensino de Biotecnologia. Primeira Edição. Rio de Janeiro, 2017. 


MALAJOVICH M. A. Biotecnología. Segunda Edição, atualizada. Rio de Janeiro, 2016.

 

MALAJOVICH M.A.M. Biotecnología. Segunda Edición Actualizada. Bernal, Editora de la Universidad Nacional de Quilmes, Argentina, 2012. 

 

MANN, V. S. A educação tecnológica no ensino fundamental: Da teoria à prática desenvolvida no Instituto de Tecnologia ORT. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2010.

 

MICROBIOLOGY IN SCHOOLS ADVISORY COMMITTEE (MiSAC). 

 

NATIONAL ASSOCIATION OF BIOLOGY TEACHERS (NABT). 

 

NATIONAL CENTRE FOR BIOTECHNOLOGY EDUCATION, UNIVERSITY OF READING (NCBE). 

 

NATIONAL STEM LEARNING CENTER 

 

NOVOZYMES

 

NUFFIELD FOUNDATION – Education. 

 

PEREZ, D. G. et al. (Ed.). ¿Cómo promover el interés por la cultura científica? Santiago: Oficina Regional de Educación para América Latina y el Caribe, OREALC/UNESCO, 2005. 

 

PLANT CELL TECHNOLOGY – About PPM

 

UNITED NATIONS SCIENTIFIC AND CULTURAL ORGANIZATION (UNESCO). 

 

SASSON, A. Biotechnologies et développement. Paris: UNESCO, 1988.

 

SCIENCE COMMUNITY REPRESENTING EDUCATION (SCORE) 

 

SINGER, S.R. et al. Ed. America’s Lab Report: Investigations in High School Science. Washington, DC: The National Academies Press, p. 1-254, 2006. 

 

THE ASSOCIATION FOR SCIENCE EDUCATION.

 

THE WELLCOME TRUST. Education Resources

 

VERMELHO A.B. et al. Práticas de Microbiologia. Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan, 2006

 

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